Rodrigo Lopes deu uma entrevista ao site Diário da Manhã pontocom de Passo Fundo, segue abaixo:
Um olhar humano sobre o Jornalismo
Primeiro livro assinado pelo jornalista Rodrigo Lopes será lançado durante a Jornada Nacional de Literatura
Os bastidores de 14 reportagens – incluindo as tragédias e os fatos que modificaram profundamente o cenário internacional – vistas pelo olhar de quem presenciou as consequências históricas de cada uma delas. Na próxima quinta-feira, dia 25, as lonas da 14ª Jornada Nacional de Literatura cedem espaço para o lançamento de “Guerras e Tormentas: Diário de um Correspondente Internacional”, escrito pelo jornalista multimídia do Grupo RBS Rodrigo Lopes.
Lopes vivenciou o desastre provocado pelo furacão Katrina em New Orleans, os conflitos no Líbano, a eleição do presidente norte-americano Barack Obama e do papa Bento XVI. Mais que reportagens premiadas, ele traz em sua bagagem a experiência de enfrentar o medo, a fome, o sono e de conhecer, de perto, a realidade das vítimas dessas tragédias. O livro, primeira publicação do jornalista, descarta a objetividade e frieza dos números, ressaltando o lado humano do jornalismo.
A sessão de autógrafos é a partir das 17 horas, no pavilhão principal. Enquanto o lançamento não acontece, nós conversamos com o jornalista para saber um pouco mais sobre a obra e conseguimos um trecho exclusivo do livro.
Nexjor: Em que momento surgiu a ideia de escrever um livro relatando a tua experiência em coberturas internacionais?
Rodrigo Lopes: Sempre que eu conversava com estudantes de jornalismo, em bate-papos, nas faculdades, ao final, o pessoal me perguntava: “Tu não vai escrever um livro?”. A vontade de escrever o livro existia, eu precisava relatar além das reportagens, mostrar os bastidores, aquilo que só o repórter em campo sente. Eu precisava dividir os meus sentimentos, experiências. Mas eu precisava de um deadline, um prazo. Por isso, precisava fechar com alguma editora. Maikio Guimarães, meu colega da Rádio Gaúcha, me apresentou a BesouroBox, que comprou a ideia na hora. Logo, eu me impus um prazo: escreveria em seis meses. Jornalista precisa de deadline, né? (Risos)
N: Além da descrição detalhada de quem presenciou tragédias como a ?devastação provocada pelo furacão Katrina, o terremoto no Haiti e os ?conflitos no Líbano, o que o leitor pode esperar de Guerras e Tormentas?
R: Minha ideia é conduzir o leitor para dentro do que vivi: no avião, no hotel, ao desembarcar em uma zona de catástrofe. Quero que o leitor experimente o que eu vivi: as dúvidas, os medos, as conquistas. Desde o momento em que aqui, no nosso estado, eu fui desafiado a embarcar para uma cobertura até o fim. As ansiedades, “será que vai dar certo?”, “será que vou conseguir entrar?”, “e, entrando, vou conseguir sair?” Essas dúvidas todas estão no livro. Quero desmistificar a ideia que se tem do correspondente de guerra. Quero mostrar que um ser humano comum, vivenciando um conflito como repórter, tem mais dúvidas, dificuldades, do que certezas, vitórias. E, ao mesmo tempo, explicar o que penso: que é preciso humanizar o jornalismo, contar histórias de pessoas, não apenas o jornalismo objetivo. A Líbia sob bombas é uma coisa. Contar a vida das pessoas que a vivenciaram é outra.
N: O diário de um correspondente internacional não é feito somente de ?“Guerras e Tormentas”. Na tua carreira, constam coberturas como o ?resgate dos mineiros chilenos e a eleição do papa Bento XVI. Este ?livro traz exclusivamente o teu relato sobre as tragédias internacionais? Se sim, por quê?
R: Não, felizmente, há relatos de alegrias, como o resgate dos mineiros no Chile, a eleição e posse de Barack Obama – que considero um dos grandes momentos da democracia – e até uma viagem ao Vietnã, 30 anos depois da guerra, um país extremamente simpático que se abre para o mundo. A imagem final do ultimo mineiro resgatado da mina San José é praticamente um milagre. Cada um dos 33 saídos das profundezas de 700 metros de profundidade era um milagre. No livro, há alegrias, não apenas tragédias. Há momentos curiosos, como beber vodca a 12 graus negativos, em Washington, para não congelar, ou pedir uma tele-pizza em plena guerra no Oriente Médio.
N: Pelo trecho disponibilizado no teu blog, podemos perceber que as ?páginas carregam descrições que fogem da “frieza” jornalística e ?revelam a tua visão diante dos acontecimentos que marcaram a história ?mundial. O que foi mais desafiador: escrever as matérias e reportagens ?- usando uma linguagem objetiva – ou relatar os fatos com um olhar subjetivo e emocional?
R: Não acredito em relato objetivo, onde o jornalista se distancia do ser humano. Todas as minhas reportagens são viscerais, são o Rodrigo Lopes repórter/ser humano. Não acredito em reportagens que têm apenas números, como 100 pessoas morreram em um bombardeio na Líbia. Quem são essas pessoas? Quais eram seus sonhos? O que imaginavam para suas vidas? A vida de uma pessoa, bem contada, vale muito mais do que um número. Os relatos do livro trazem o ser humano por trás das histórias.
N: “Volto alguns passos, penso em não olhar. Mas, como jornalista, sinto o dever de escancarar a realidade crua.” Essa frase define ?perfeitamente o conflito que se instala entre o lado pessoal e o profissional de um jornalista. Esse momento, particularmente destacado na frase anterior – e que descreve a realidade dos haitianos após o terremoto que matou cerca de 200 mil pessoas – foi o mais difícil de ?todas as coberturas internacionais?
R: Foi um dos mais difíceis, não há dúvidas. O Haiti foi a cobertura mais difícil do ponto de vista emocional. Para onde eu olhava havia corpos em decomposição, isso três dias depois do tremor. Ou seja, os caras não recolhiam, não enterravam os corpos. Isso revoltava o meu motorista, que me perguntava a todo momento: “Por que não enterram?”. Eu não tinha resposta. Eu precisava ver, olhar, testemunhar, mas tinha dificuldades de encarar a morte. Sentia-me abalado, triste, pensava em amigos, na minha família. Mas a morte estava escancarada, com um odor terrível, que eu precisava sentir para poder relatar. Difícil…
N: O que mais te ajudou a escrever o livro: as reportagens produzidas ou a memória?
R: O que mais me ajudou foram as fotos. Eu reli todas as reportagens que escrevi, mas foram as fotos que tirei e que nunca foram publicadas que me remetiam aos cheiros, aos cenários daquilo que escrevi. Nossa…. As fotos me levaram de volta à cena do horror; ou, muitas vezes, à cena de uma conquista pessoal, como o amanhecer em Beirute, após seis horas de carro pelo Vale do Bekaa, enclave do Hezbollah, sob bombardeio. Uma noite de tranquilidade no hotel em Beirute, a madrugada que dormi dentro do carro às portas do inferno de New Orleans. Foram as fotos que me ajudaram a recompor o cenário não contado em reportagens de jornal, TV ou radio. Tudo aquilo que agora está no livro.
N: Como foi o processo de produção do livro? Já que tempo disponível ?deve ser quase uma raridade na vida de um jornalista multimídia…
R: Escrevi muito durante a madrugada, após a apresentação do Jornal da Meia-noite, que encerra às 0h30min. Ia pra casa, me fechava no meu home office, com todo o silêncio da noite. Relia textos, via posts do blog, revia fotos, ouvia transmissões que fiz pela Rádio Gaúcha, usava o Google Maps para me transportar de volta aos lugares. Um processo de criação quase multimídia também, mas com a ajuda da serenidade e do silêncio da noite.
N: Qual a tua expectativa em relação ao lançamento do teu livro aqui ?na 14ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo?
R: Estarei ao lado de dois grandes monstros do jornalismo brasileiro: a Eliane Brum e o Edney Silvestre. Mestres que têm muito a ensinar a nós todos. Sei também que muitos futuros colegas, estudantes de jornalismo, apreciam o meu trabalho. Estive no Jornalismo da UPF recentemente, conversando com o pessoal, e o retorno foi fantástico. Por isso, estou muito otimista que meu livro será de grande ajuda aos estudantes, que sonham um dia viajar pelo mundo, encarar a História ocorrendo diante dos nossos olhos. Não tenho a pretensão de ensinar ninguém. Quero apenas dividir experiências. Se forem, de alguma forma, úteis, fico feliz. Mas minha ideia é apenas dividir histórias, exorcizar fantasmas, mostrar como eu fiz. Talvez, colegas ou futuros colegas encontrem maneiras diferentes de superar obstáculos. A minha maneira está contada no livro. É apenas uma. Que até hoje deu certo.
N: Esse é o teu primeiro livro. Podemos esperar novas publicações?
R: Sabe que eu estou curtindo essa história de escritor? Podem esperar, sim, novas publicações. Acho que o jornalismo lida com o factual, com o perene. O livro eterniza um fato, nos dá a possibilidade de refletir sobre o fato. É isso que faço em Guerras e Tormentas. É isso que quero fazer muito a partir de agora. Uma boa história pode estar do outro lado do mundo, ou do outro lado da rua. Quem sabe meu próximo livro não será sobre o outro lado da rua…
Fonte: Nexjor - Daniele Freitas
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