A ficção da vida


Acordo cedo, às 7:30. É tarde para quem levanta às 5 da manhã, sei disso. Ainda assim, 7:30, para mim, é cedo, não vou mentir. Enfim, me levanto. Tomo banho - não demorado - e passo para as trivialidades que todos passam, o que me consome uns bons 30 minutos.

Café tomado e dentes escovados, a vida, já com menos preguiça, desperta para os minutos do dia. No relógio, os ponteiros, incansáveis, fazem o tique-taque ficar parecido com as batidas de um coração. E, ao começar minha jornada de trabalho, penso que o número de pessoas no mundo que ficam presas à realidade dos ponteiros é incontável. Que seríamos de nós sem o tempo?

Começo com esse questionamento porque em meu livro, Um minuto, trato exatamente desse tema: o tempo. O tempo de agora, depois. O tempo de antes. O tempo de outras vidas, em outros tempos.

O tempo que nunca acaba para quem ama, ou que demora demais para passar para quem espera.

É, a nossa vida é assim, repleta de minutos. E o que cabe dentro desses minutos? No meu caso, cabe palavras, muitas. Cabe leitura, livros, ficção. É que a minha realidade é exatamente essa, a ficção. Não por outra razão, a realidade da escrita faz da minha vida uma deliciosa descoberta. A cada ponto, vírgula, pausa. A cada palavra ou frase que formo, formo outras vidas e descubro, ou revelo, novos mundos. Ora sou bom, ora mau. Ora sou homem, ora mulher. Posso ser assassino ou policial. Posso ser velho ou criança. Quem manda é a ficção. O que sei é que, ao escrever ficção, minha realidade vira a realidade de todos. Ou, ao contrário, a realidade dos outros vira a minha. Coisa doida isso. Verdade. As pessoas chegam a se confundir. Não é raro, para os que me conhecem, questionarem: “Mas como é que você escreveu isso, não parece você?” Claro que não parece. Não sou eu, oras, é o personagem. E, acreditem, o personagem manda. Às vezes, os escritores acham que estão no controle. Traçam os caminhos da escrita e, nalgum ponto da ficção, a realidade do personagem fica tão forte que alguns rumos da história precisam ser revistos. Isso, para você, não acontece também na vida real? Já pensou sobre isso? Nossa realidade não seria, portanto, uma eterna ficção?

Pensando bem, a vida de qualquer um é como um livro. Algumas pessoas é que não sabem, ou não entendem, que são os personagens principais. Sendo assim, recomendo: se, por alguma razão, você não puder tirar alguns minutos para ler um bom livro, leia a vida!

 

Autor: Newton Cesar

 

Em 01 de Março 2011, postado em: por BesouroBox

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