Graças ao livro Zumbis da Pedra, que escrevi com meu amigo Marco Cena, esta semana, pela primeira vez, fui patrono em uma feira do livro. O convite veio da cidade de Charqueadas. Eu, que conhecia o município mais por conta dos presídios, tive o prazer de ver que as coisas nem sempre são o que parecem.
As mais de 40 mil pessoas que moram lá aprenderam a fazer de Charqueadas não uma cidade de presídios, mas de oportunidades. Durante as entrevistas e atividades de um patrono, uma pergunta sempre foi muito frequente: “O que lhe fez não seguir a vida errada?”
Nem eu tinha pensado a fundo nisso, mas depois de refletir, vi que eu, na adolescência, até queria ser bandido. Achava maneiro, afinal, eles andavam de moto e pegavam várias minas. Por outro lado, conforme eu olhava os caras de perto, via que aquele sucesso deles era um holograma, pura ilusão. Tanto que, na casa das suas mães, às vezes, não tinha gás para cozinhar um rango. Eles dormiam cada dia em um lugar, com medo de serem pegos. Trocavam de namoradas com medo que elas soubessem de seus esquemas e dessem o golpe. Não podiam ver uma moto com farol alto que achavam que iam morrer. E, quando morriam, o caixão tinha que ser lacrado, porque a cabeça estava estourada.
Eu não queria que minha mãe visse a perícia recolhendo meus miolos com pazinha de lixo. Quando coloquei na balança, vi que ser bandido parecia ser maneiro, mas no fim eu ia me quebrar.
Na vida do crime, por mais responsa que sejamos, sempre estaremos dormindo com a pistola embaixo do travesseiro. E, se nos acordarem no susto, atiramos. Numa dessas, já vi malandro matar filho e chorar a vida inteira. Não quero isso para mim. Graças a Deus, e à linha dura de minha mãe, eu me dei conta a tempo de voltar e seguir outro rumo na vida.
O meu pedido é: mostre este texto ao seu filho para que ele não se deixe levar pelo holograma marginal.
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